sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Em Maringá a diversão é o leite



       Quase dois anos se passaram e Maringá pode comemorar o título de cidade com uma das leis mais conservadoras e mais cretinas que já se ouviu falar: A Lei Seca nos arredores da UEM. Uma lei, que eu não conseguiria imaginar nem em cidades de cultura mais provinciana que a cidade canção (Se bem que os senhores do Feudo Maringá, e a dinastia dos Pés de Barros tratam a população com mentalidade provinciana, pautada por um cristianismo quase ultramontano, medieval mesmo).


   É triste a ignorancia e a falta de argumentos que pautam essa lei. Criada sob inspiração religiosa e moralista, um moralismo dos mais retrógados e conservadores possíveis (se é que existe algum moralismo que não seja conservador).

   Mais incrível ainda é a camada de óleo de peróba que reveste o apoio da imprensa local e da opinião pública à esta lei bizarra. Pautando-se por argumentos preconceituosos contra estudantes e por falácias autoritárias em torno do cerceamento de liberdades indivíduais.
O problema inicia-se a partir de uma visão equivocada que grande parte da cidade tem dos estudantes da UEM. Em geral vêem os estudantes como "vagabundos" e "bagunceiros", pautado por um, intelectualmente limitado, conceito de ordem. Lançam seus olhares par a Universidade como um problema e não como uma riqueza ou um patrimônio da cidade (muitos até comerciantes ou funcionários de setores muitas vezes economicamente impulsionados por estudantes, como vídeolocadoras, lanchonetes e padarias da própria Zona 7).

   Antes da Lei Seca muito se reclamava do barulho e da bagunça dos estudantes da zona 7 em torno dos bares da UEM. Daí pra culpar a bebida é um "pulo". Contudo após a lei a coisa piorou, pois antigamente os frequentadores dos bares que, legalmente e legítimamente, buscavam lazer e diversão, se dividiam entre diversas opções para gostos e públicos diferentes; agora passaram a concentrar-se em poucos bares, um pouco mais longe das fronteiras da Universidade, mas ainda na Zona 07. O resultado foi uma maior aglomeração do barulho e das festas, o que passou a ser reprimido muitas vezes com truculencia por uma polícia mais preocupada em "descer o cassetete" em estudantes (deve ser saudades da ditadura militar, ou recalque de alguns soldados e oficiais que não conseguiram entrar na universidade pública), do que vigiar as ruas da zona 7, cada dia mais recheada de assaltos, roubos e furtos com pouca repercussão na imprensa local.
Usar a polícia pra essa finalidade é cômodo e covarde. É como usar um canhão pra matar um rato.
O curioso é notar o quão falso é o argumento de que os estudantes moradores da Zona 7 são os maiores causadores de barulho na região. A maioria destes estudantes são provenientes de outras cidades, que geralmente esvaziam as ruas do bairro em fins de semana com feriados prolongados; e curiosamente nos dias de férias e feriados o barulho continua, o que me faz pressupor que os moradores da Zona 7 não são os grandes "culpados" pelo barulho.
Quem realmente faz barulho são os filhinhos de papai, playboys e agroboys, que com seus automóveis e caminhonetes desfilam pelas ruas, ocupando seus porta-malas com caixas de som ensurdecedoras, sem perguntar para os outros se estão interessados em ouvir as mesmas músicas que eles(em geral de péssimo gosto -------> opinião pessoal). São pessoas que não se importam com Lei seca na zona 7, pois podem, e têm condições de se deslocarem para outros lugares para cantar os pneus e exibirem suas caminhonetes como a representação de virilidade e masculinidade (Pensam que a caminhonete é uma extensão de seus próprios falos).


A ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA

Fator antigo, e mais do que óbvio para aqueles que precisam morar nas proximidades da UEM, é o alto custo dos alugueis existentes na Zona 7. É claro que um processo de encarecimento da moradia ocorreu em todo país, contudo em Maringá, esse processo começou antes e com um inflacionamento do preço das moradias muito maior que em qualquer outro lugar. O preço da moradia em Maringá chega a competir com o valor de capitais com São Paulo e Curitiba.
O alto custo da locação dos imóveis encarece o custo de vida na cidade.
É claro que nesse processo de valorização de imóveis, precisa-se gerar condições habitacionais que permitam que esse mercado especulativo de valores imobiliários (não é nem um termo formal e econômico, eu que estou dizendo para exemplificar) tenha seus produtos valorizados. Para essa finalidade uma lei que proíbe bares (que ao chegarem à falencia dão lugar à salas comerciais) cai como uma luva para as imobiliárias e os proprietários de imóveis.
Contudo, não se pode dizer explicitamente que esse é o objetivo, talvez por questões éticas ou até cristãs (dizem que ganancia é um tipo de pecado), então esse objetivo reveste-se por argumentos moralistas e retrógrados, como o de que o "jovem maringaense deve ficar longe da bebida, para poder concluir seus estudos de forma mais proveitosa, e saudável". Parece propaganda de Biotônico Fontoura (que era bem melhor quando continha alcóol).

As "santas, santos, beatas, beatos e neocons" maringaenses aplaudem de pé argumentos como este.

O DIREITO DE IR E VIR.

A primeira Lei aprovada nesse sentido proibiu o comércio e o consumo de bebidas durante os dias de realização do vestibular, como forma de coibir qualquer tipo de manifestação festiva ou aglomerações de vestibulandos na Zona 7. A lei elaborada pela vereadora Marly Martin, que adora aprovar leis municipais pautadas por Leis divinas, (o famoso lobby religioso, hoje existente em todas as instancias legislativas, e até executivas, do poder) o apoio da comunidade foi imediato, e o projeto foi aprovado.
Posteriormente, em outra lei de autoria da mesma vereadora proibiu-se a comercialização de bebidas alcólicas nos arredores de 100 metros da UEM, mais uma afronta ao direito de ir e vir, e o mais grave, afetam comerciantes que dependem dos bares como forma de sustento. Após a lei, alguns bares fecharam e outros bares mais antigos tiveram o movimento reduzido drásticamente e realizaram demissões de funcionários para poderem manter os estabelecimentos abertos.
Além disso, a lei interfere no direito dos estudantes de escolherem se pretendem beber ou não. Cabe lembrar que não estamos falando de crianças bebendo, mas sim de estudantes que em geral são maiores de idade e a lei assegura que podem consumir bebidas alcólicas.

A "CRUZADA" ANTI-BEBIDA CONTINUA
 
Até o direito de tomarmos uma cevejinha está ameaçado.
Agora, a vereadora Marly quer ir mais além, quer "secar" os bares da cidade toda. Seu novo projeto pretende limitar o horário de comercialização de bebidas alcólicas em bares para às 23hs. Sim, Maringá pode correr o risco de ser uma cidade limitada (mais do que já é) no que diz respeito à opções de diversão e lazer.
Qual será o próximo passo, proibir a venda de bebidas em toda a cidade, em todos os dias e horários. como nos EUA da década de 1920? (se isso acontecer eu me tornarei contrabandista de bebidas, anotem isso).
Ou então, será que os representantes da dinastia Pés de Barros em Brasília sugerirão a aprovação de 30 anos de cadeia para quem beber?

Ou aprovarão uma lei que obrigue todos Maringaenses a se confessarem uma vez por semana, lerem a bíblia e fazer uma oração ao Santo Barros duas vezes por dia?

 Parece brincadeira, mas as leis mais absurdas não surgem de uma hora para outra, elas vão chegando uma a uma, sendo aprovadas e cumpridas a todo custo. Quando nos damos conta nossas vidas foram cerceadas de forma autoritária.

E os estudantes da UEM o que fazem?
Infelizmente até agora nada vi. O Diretório Central dos Estudantes, na gestão Bonde do Amor, aceitou de forma "amável" a lei, até se colocou contra, mas nada fez, nem pressões, nem manifestações, nem negociações, nada!
É preciso mudar essa perspectiva. Caso contrário, corremos o risco de sermos obrigados a tomar leite em nossos momentos de diversão em Maringá.
Triste esse retrocesso na mentalidade de uma cidade que se propõe "progressista" no que diz respeito à urbanização.

O leite será servido em festas e bares, inclusive acompanhando porções.
Daqui a pouco os produtores de Soja da região (verdadeiros barões) pressionarão a câmara municipal para proibir a venda de qualquer outra bebida na cidade, além do leite de soja.
Esse não é o caso. Bem ou mau, o agronegócio não está se lixando para nós, estão mais preocupados com os países para quem exporta do que com a comida na mesa do brasileiro.
Porém nunca se sabe os rumos que podemos tomar, nem que tipo de leis essas instituições malucas continuarão a aprovar. Devemos estar atentos.

E VOCÊ, O QUE PENSA SOBRE A LEI SECA EM MARINGÁ?

3 comentários:

  1. Penso o mesmo que vc. Um absurdo! Mentalidade Medieval mesmo! Proibir não é sinônimo de não consumir, que o diga os EUA da década de 1920.

    Realmente, o barulho na rua do Kanarinhu´s se faz por playboys e agroboys que não estudam na UEM e sequer moram na Zona 7.

    Além disso, que eu saiba, nenhum comerciante entra na UEM, bate nas salas e pesca alunos nos corredores para irem em seus bares beber.

    Este texto tem que ser publicado no O Diário!!! rs

    ResponderExcluir
  2. Vinícius V. Vieira12 de novembro de 2010 17:58

    Por isso mesmo que eu fiz Unitoledo! Lá o patas é defendido até mesmo pela faculdade! hahaha
    Com certeza se o bar não existe a faculdade teria menos alunos.

    Posts muito bem escritos meu velho... estarei acompanhando.

    Abraço.

    ResponderExcluir
  3. se seus presságios estiverem certos iniciaremos a campanha "quem sair por último, que apague a luz".

    Aí a gente vai ver Maringá distribuindo cerveja nas ruas pra tentar recuperar o público que sustenta grande parte de sua economia.

    Brincadeiras à parte... a questão é muito séria. Muitas pessoas, como você disse, estão sendo prejudicadas com essa lei ridícula, oportunista, maliciosa e que pra variar ilude a comunidade maringaense (conheço casos de perto).

    O que se vende como "melhora pro desenvolvimento intelectual", "paz para os moradores que há tanto tempo vivem no local".. etc... tudo isso não passa de balela. Jogo político. E, claro, (sempre) desviar a atenção das coisas que realmente deveriam ser discutidas, como a falta de investimento nas periferias da cidade, a péssima administração do dinheiro enviado à educação, saúde, o super-faturamento das obras públicas.

    Revoltante...

    é Rodrigo, eles sabem muito bem o que fazem.

    ResponderExcluir

Opine sobre a postagem: deixe seu comentário